A ANPUH-SP lançou durante a semana do XXVIII Encontro Estadual o livro "História sob ataque", resultado da campanha iniciada na última gestão de defesa da história contra os ataques sofridos pela profissão, principalmente no estado de São Paulo.
A História sob Ataque* reúne diferentes vozes da historiografia, do ensino de História e da reflexão sobre educação para discutir um problema que atravessa todo o volume: o lugar da História na sociedade contemporânea e os conflitos em torno de sua produção, ensino e transmissão. Organizado por Antonio Simplicio de Almeida Neto, Everaldo de Oliveira Andrade e Samantha Lodi Correa, o livro articula documentos de intervenção pública, registros de mobilização e artigos de análise, construindo um panorama amplo dos desafios enfrentados pela História e pelos profissionais da área.
Mais do que uma coletânea de textos independentes, o volume procura registrar um momento de mobilização em defesa da História. Sua organização em três partes — “A campanha em defesa da História”, “A audiência Pública ‘Defesa da História, da Soberania Nacional e da Democracia’” e uma terceira seção dedicada a artigos analíticos — permite acompanhar diferentes formas de intervenção: o manifesto e a mobilização pública, o debate coletivo realizado em audiência e, finalmente, a reflexão mais sistemática sobre os problemas que envolvem o ensino, a pesquisa e a produção do conhecimento histórico.
Na terceira parte, Francivaldo Alves Nunes, Marcos Abreu Leitão de Almeida e Paulo Eduardo Dias de Mello discutem a construção de uma agenda nacional para a História, recuperando a dimensão coletiva da organização dos profissionais da área. Antonio Simplicio de Almeida Neto e Arrovani Luiz Fonseca, em Triste Ensino de História! Ó Quão Dessemelhante, voltam-se para os problemas e transformações do ensino de História. Já Eduardo Januário e Yuri Martins-Fontes analisam criticamente o empreendedorismo e a chamada teoria do capital humano no ensino público paulista.
Outros autores ampliam o debate para questões relacionadas à própria construção do conhecimento histórico e aos sujeitos que dele participam. Marcela Boni Evangelista, Suzana Lopes Salgado Ribeiro, Nailton Negreiros Ribeiro e Rafaela Duarte Vieira discutem a presença das mulheres na História, articulando ensino, pesquisa e extensão. Eduardo Silveira Netto Nunes e Claudia Panizzolo colocam em discussão a tensão entre escola democrática e escola militarizada, incorporando ao debate os desafios trazidos pela inteligência artificial.
A amplitude temática prossegue nos textos de Cíntia Verza Amarante e Bruna Gomes dos Reis, dedicados à educação para o desenvolvimento sustentável e aos desafios da transformação social; de Marcia Regina da Silva Ramos Carneiro e Hugo Gaspar Rezende Emerick, em Nós acusamos, voltado à dimensão da memória, da denúncia e das violências sociais; e de Alfredo Oscar Salum e Matheus Cardoso-da-Silva, que aproximam História, cinema e relações internacionais em sua discussão sobre a China na Segunda Guerra Mundial.
Thiago Henrique Sampaio e Helena Wakim Moreno abordam a relação entre História e política educacional a partir da Lei 10.639/2003 e da construção do campo de História da África no Estado de São Paulo. Por fim, Sérgio Felix Piresretoma diretamente a questão que dá nome à campanha no texto Mais História no Currículo de História: avanços e contradições no Currículo Oficial da Cidade de São Paulo.
O livro não apresenta uma única perspectiva sobre os problemas da História. Ao contrário, reúne pesquisadores e professores que abordam diferentes dimensões de uma questão comum. Há textos voltados à profissão e à organização coletiva dos historiadores; outros concentram-se no currículo e no ensino; alguns discutem gênero, relações raciais, memória e violência; outros examinam autoritarismo, militarização, tecnologia, inteligência artificial, sustentabilidade ou relações internacionais. O resultado é uma visão abrangente dos diferentes espaços nos quais a História é produzida, ensinada e disputada.
A organização de Antonio Simplicio de Almeida Neto, Everaldo de Oliveira Andrade e Samantha Lodi Correa articula documentos de natureza distinta e os coloca em diálogo com os artigos produzidos por outros autores. A primeira e a segunda partes registram diretamente a mobilização da Anpuh-SP, enquanto a terceira demonstra que a defesa da História exige também reflexão sobre os processos que transformam a escola, a universidade e as formas de produção e circulação do conhecimento.
O livro parte da compreensão de que a disputa pela História não é nova. A apresentação recupera experiências de controle da memória e do conhecimento e estabelece uma relação particular com a história brasileira, sobretudo com a ditadura iniciada em 1964, período marcado pela perseguição a intelectuais e estudantes, pela intervenção nas universidades, pela censura cultural e pela substituição da História e da Geografia pelos Estudos Sociais. A redemocratização é apresentada também como processo de reconstrução dos espaços de produção do conhecimento histórico e de formação docente.
É justamente a partir dessa perspectiva histórica que os autores reunidos no volume analisam as formas contemporâneas de ataque à História. O negacionismo histórico constitui uma dessas dimensões, especialmente quando procura apresentar como equivalentes o conhecimento produzido por meio de pesquisa, fontes e métodos e opiniões sem compromisso com a investigação histórica. Outra dimensão aparece na transformação da educação segundo uma lógica cada vez mais orientada por eficiência, padronização, competências utilitárias, empreendedorismo e plataformas digitais.
Nesse quadro, a campanha Mais História, apresentada na primeira parte, aparece como resposta pública a um conjunto de processos que reduziram o espaço da História nos currículos e fragilizaram a autonomia docente. O abaixo-assinado “Em defesa da História” sintetiza reivindicações relativas à recomposição da carga horária, à profissão de historiador, à valorização docente, à liberdade de ensinar e aprender e à participação dos profissionais da área nas políticas educacionais.
A segunda parte, dedicada à audiência pública, permite perceber como essas questões foram apropriadas por diferentes sujeitos. As intervenções de pesquisadores, professores da educação básica, sindicatos e movimentos estudantis mostram que a discussão sobre História ultrapassa os limites de uma disciplina escolar. O registro das falas também dá concretude aos conflitos vividos pelos professores, mostrando que as disputas sobre currículo, memória e liberdade de ensino possuem consequências concretas sobre o trabalho e a vida dos profissionais da educação.
A terceira parte é particularmente importante para compreender o livro como uma obra coletiva de reflexão. Os artigos não repetem simplesmente os argumentos dos manifestos. Eles investigam diferentes aspectos dos problemas apresentados nas duas primeiras partes. Francivaldo Alves Nunes, Marcos Abreu Leitão de Almeida e Paulo Eduardo Dias de Mello discutem a construção de uma agenda nacional; Antonio Simplicio de Almeida Neto e Arrovani Luiz Fonseca analisam o ensino; Eduardo Januário e Yuri Martins-Fontes discutem a relação entre empreendedorismo e educação; enquanto os demais autores ampliam o debate para gênero, autoritarismo, tecnologia, sustentabilidade, memória, história global, História da África e currículo.
É essa diversidade que permite compreender A História sob Ataque como mais do que um livro de denúncia. Ele é também um livro sobre o próprio campo da História e sobre sua capacidade de responder aos problemas do presente. Seus autores partem de objetos e perspectivas diferentes, mas convergem na preocupação com as condições que tornam possível produzir, ensinar e socializar o conhecimento histórico.
Por isso, a defesa da História apresentada no volume não se reduz à reivindicação de mais espaço curricular. A questão envolve também a formação dos professores, a valorização profissional, a liberdade de ensinar e aprender, a preservação da memória, o reconhecimento de diferentes sujeitos históricos e a construção de uma educação capaz de formar indivíduos com condições de compreender criticamente a sociedade em que vivem.
A força do livro está, portanto, na articulação entre mobilização e reflexão, denúncia e pesquisa, experiência profissional e análise histórica. Os documentos reunidos nas primeiras partes registram uma intervenção pública concreta, enquanto os artigos da terceira parte ampliam os problemas e mostram sua complexidade. O próprio livro se converte, assim, em documento de seu tempo e em material para compreender as disputas contemporâneas em torno da História e da educação.
Ao final, o conjunto dos autores sustenta uma concepção de História como conhecimento produzido rigorosamente, prática de ensino e patrimônio social. A História aparece como instrumento para compreender as relações de poder, as desigualdades, as experiências de resistência e as conquistas democráticas, mas também como campo permanentemente aberto à incorporação de novos sujeitos, problemas e perspectivas.
A História sob Ataque é, nesse sentido, uma obra coletiva sobre a necessidade de defender as condições sociais, educacionais e intelectuais que tornam possível conhecer o passado. Sua diversidade de autores é também sua forma de demonstrar a amplitude do campo histórico: diferentes objetos, diferentes experiências e diferentes formas de investigação convergem para uma questão comum — qual lugar deve ocupar o conhecimento histórico na formação das novas gerações e na vida democrática?
Mais do que responder definitivamente a essa questão, o livro procura colocá-la em debate. E é justamente nessa combinação entre a intervenção pública da Anpuh-SP e a reflexão de seus diferentes autores que reside sua principal característica: a defesa da História como uma tarefa coletiva, que interessa não apenas aos historiadores, mas à sociedade que deseja compreender seu passado e discutir seu futuro.
O livro pode ser adquirido na sede da ANPUH-SP, no prédio de História da FFLCH.
Valor para sócios: R$45,00
Valor para não sócios: R$60,00